NOVO HAMBURGO
Mudanças climáticas alteram o perfil das doenças infecciosas no Brasil e desafiam os serviços de saúde

O avanço das mudanças climáticas já não é apenas uma preocupação ambiental, trata-se também de um desafio crescente para a saúde pública. No Brasil, a combinação de calor fora do padrão, chuvas intensas e períodos de seca tem alterado o perfil epidemiológico do país, favorecendo o surgimento e a expansão de doenças infecciosas, especialmente aquelas transmitidas por vetores.
De acordo com Thamise Greff, enfermeira e docente da área da Saúde do Senac Novo Hamburgo, as alterações nos padrões de temperatura e precipitação criam condições ideais para a proliferação de microrganismos e vetores. Um dos exemplos mais evidentes é o Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, zika e chikungunya. “O aumento das temperaturas e a ocorrência de chuvas intensas ampliam os criadouros do mosquito, favorecendo a circulação dessas doenças”, explica.
Além das arboviroses, o cenário climático instável tem contribuído para a expansão geográfica de enfermidades como febre amarela, malária e leishmaniose, que passam a atingir áreas antes consideradas fora de risco. Na prática, essa mudança já é sentida nos serviços de saúde, com maior demanda por atendimentos, sobrecarga das Unidades Básicas e pressão sobre os serviços de urgência.
Eventos extremos intensificam riscos
Ondas de calor, enchentes e períodos prolongados de chuva intensificam ainda mais esse quadro. Segundo a docente, as altas temperaturas aceleram o ciclo reprodutivo dos mosquitos, aumentam sua longevidade e elevam a taxa de transmissão de vírus. Já enchentes e alagamentos criam ambientes propícios para doenças associadas à água contaminada.
Um exemplo recente foi observado durante as enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, quando houve aumento significativo dos casos de leptospirose, evidenciando como eventos climáticos extremos impactam diretamente a saúde da população. Em áreas urbanas, a combinação desses fatores favorece o ressurgimento e a intensificação de surtos de dengue, zika e chikungunya.
Imprevisibilidade dificulta prevenção
Outro desafio apontado é a dificuldade crescente de prever surtos. A variabilidade climática, marcada por chuvas irregulares, ondas de calor e períodos de seca, torna a vigilância epidemiológica mais complexa e menos previsível. “Essa imprevisibilidade compromete a capacidade de antecipar riscos e planejar ações preventivas”, destaca a especialista.
Para enfrentar esse cenário, torna-se essencial o fortalecimento dos sistemas de informação em saúde, o uso de modelagem climática aplicada à vigilância epidemiológica e a implementação de alertas precoces, conforme orientações do Guia de Mudanças Climáticas e Saúde do Ministério da Saúde. Essas estratégias exigem investimento, integração de dados e capacitação contínua das equipes multiprofissionais.
O papel estratégico da enfermagem
Nesse contexto, os profissionais de enfermagem, especialmente os técnicos, assumem papel central. Eles atuam na identificação precoce de sintomas, como febre, dores articulares, exantema e sinais de alarme, garantindo encaminhamento rápido e redução de complicações. Também são responsáveis por ações educativas, orientando a população sobre eliminação de criadouros, uso de repelentes e cuidados em áreas de risco.
Além disso, os técnicos em enfermagem participam de visitas domiciliares, mutirões de limpeza, campanhas de bloqueio vetorial e processos de notificação, fortalecendo a vigilância epidemiológica e o controle das doenças sensíveis ao clima.
Comunidades mais resilientes
A prevenção, no entanto, não depende apenas dos serviços de saúde. Práticas simples nas comunidades podem reduzir significativamente os riscos de surtos, como a eliminação de água parada, organização de mutirões de limpeza, melhoria do saneamento básico e participação ativa em campanhas educativas. Essas ações fortalecem a resiliência comunitária e contribuem para a redução da proliferação de vetores.
Formação alinhada aos novos desafios
Diante desse novo panorama epidemiológico, as escolas técnicas de saúde têm papel fundamental na formação de profissionais preparados para lidar com os impactos das mudanças climáticas. Isso inclui a inserção de conteúdos sobre saúde pública e clima, metodologias participativas, capacitação prática em vigilância epidemiológica e alinhamento com diretrizes oficiais do Ministério da Saúde. “Formar técnicos de enfermagem com essas competências é essencial para garantir respostas rápidas e eficazes diante de cenários sanitários cada vez mais complexos”, reforça Thamise.
Para a docente, enfrentar os impactos das mudanças climáticas sobre a saúde exige responsabilidade compartilhada entre instituições de ensino, profissionais da saúde e comunidades. “Somente com profissionais capacitados e população informada será possível reduzir riscos, evitar surtos e proteger a saúde coletiva em um cenário climático cada vez mais instável”, finaliza.