NOVO HAMBURGO
Inteligência emocional em tempos de inteligência artificial
Novo Hamburgo – 25/02/2026
Quando a tecnologia avança, o que diferencia é o que torna humano
A inteligência artificial escreve textos, analisa dados, projeta cenários, cria imagens e responde em segundos aquilo que levaríamos horas para organizar. Para muitos, ela representa a quarta revolução industrial. Para outros, um misto de fascínio e receio. Mas, em meio à automatização crescente, uma pergunta se impõe: o que ainda é exclusivamente humano?
Para o orientador de Educação Profissional do Senac Novo Hamburgo, Gelson Albino Cardoso, a resposta passa pela inteligência emocional: “O advento da inteligência artificial é, sem dúvidas, um marco histórico para a humanidade. Ela nos encanta com a velocidade e assertividade na automatização de processos. Entretanto, o ser humano não é sempre lógico. Somos seres emocionais, carregados de subjetividades e singularidades”.
No ambiente corporativo, onde metas, indicadores e resultados parecem dominar a cena, Cardoso lembra que o mercado é, antes de tudo, feito por gente. “O ambiente profissional vai muito além de dados. Ele é formado por pessoas trabalhando com pessoas e para pessoas.” E provoca: “A inteligência artificial pode me dar as respostas para tudo o que eu pedir, mas e quando eu não sei exatamente o que pedir?”.
O que a máquina não alcança
É justamente aí que entram os cinco pilares da inteligência emocional: autoconsciência, autorregulação, automotivação, empatia e habilidades sociais, popularizados pelo psicólogo e escritor Daniel Goleman. Na prática, resume Cardoso, trata-se de “viver bem consigo e com o outro”.
Assistentes virtuais podem simular empatia. Bots conseguem manter diálogos sofisticados. Mas há um limite invisível que a tecnologia ainda não ultrapassa. “Eles podem simular relações de maneira assustadoramente realistas, mas nunca vão substituir uma interação genuinamente humana”, destaca.
O docente chama atenção para um fenômeno crescente: pessoas que recorrem à IA como substituta de processos terapêuticos. “A alegação é de que funciona porque a máquina diz exatamente o que elas querem ouvir. Ora, é para isso que o sistema é programado. Porém, só um interlocutor humano vai nos dizer aquilo que precisamos ouvir”. Entre o conforto da resposta fácil e o desconforto necessário ao crescimento, está a diferença entre informação e transformação.
Informação se acessa. Conhecimento se constrói
Na educação, o desafio é ainda mais delicado. Muitas instituições afirmam priorizar competências socioemocionais, mas seguem presas a modelos centrados na memorização. Cardoso critica o que chama de “educação bancária”, conceito associado ao educador Paulo Freire, em que o aluno é mero receptor de conteúdos. “Para se educar para a inteligência emocional é preciso enfatizar a aplicação dos conhecimentos em benefício das pessoas”, explica. Ele afirma que, no Senac, o desenvolvimento vai além da técnica: envolve competências humanas e cidadãs. “A informação pode ser acessada com Inteligência Artificial. O conhecimento é construído”, ressalta.
O futuro pertence a quem sente e se adapta
Se as hard skills tendem a ser cada vez mais automatizadas, as soft skills ganham protagonismo. “Saber compreender e gerenciar as próprias emoções em momentos de crise é fundamental para a resolução eficaz de problemas e gestão de conflitos”, comenta Cardoso. Logo depois, destaca a empatia: enxergar o outro não apenas como meta ou comissão, mas como indivíduo com um problema real a ser resolvido.
Outra competência decisiva é a adaptabilidade: “A única certeza que temos hoje é que tudo pode mudar a qualquer momento”. Profissões desaparecerão, novas surgirão, e permanecerá relevante quem conseguir se ajustar: “O futuro não é do mais forte, nem do mais inteligente, mas daquele que melhor se adapta”.
Há ainda um alerta respaldado pela neurociência, a neuroplasticidade. O cérebro se molda aos hábitos que repetimos: “Quanto mais deixarmos que a IA tome decisões por nós, mais dependentes dela ficaremos”. O caminho, segundo ele, não é rejeitar a tecnologia, mas redefinir a relação com ela: “Ao invés de dizer para a IA ‘faça’, crie o hábito de dizer ‘me ajude a fazer’”.
Conectar-se com gente
Para quem deseja fortalecer a inteligência emocional, a orientação é direta: prática. “Inteligência emocional diz respeito a relacionamentos. Quanto mais convivemos com pessoas, mais maduras serão nossas interações”, destaca. Esportes de grupo, trabalho voluntário, encontros presenciais, networking real. Em processos seletivos, a clássica pergunta “O que você faz no seu tempo livre?” não é curiosidade trivial: “Os recrutadores querem saber se você realmente pratica as soft skills que colocou no currículo.”
No fim das contas, a inteligência artificial seguirá evoluindo, e rapidamente. A provocação final de Cardoso é quase um convite à autorreflexão: “A pergunta fundamental é: e nós? Vamos evoluir para tirar o máximo proveito desta ferramenta?”. Em tempos de máquinas cada vez mais inteligentes, talvez o maior diferencial competitivo continue sendo algo antigo, essencial e profundamente humano: a capacidade de sentir, compreender e se conectar.