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NOVO HAMBURGO

Moda sustentável vai além de tendências e propõe um novo olhar sobre consumo

Especialista aponta como escolhas conscientes, transparência e durabilidade redefinem a forma de consumir moda

A moda sustentável ganha espaço ao propor mudanças na forma de produzir e consumir roupas. O conceito envolve toda a cadeia produtiva, desde a escolha da matéria-prima até o descarte, e busca equilibrar impacto ambiental, responsabilidade social e viabilidade econômica.

De acordo com a coordenadora da área de Moda do Senac Novo Hamburgo, Natálya Duhart Figueiredo, o tema vai além da estética ou de coleções “verdes” e exige uma revisão ampla do setor. “Trata-se de repensar toda a cadeia produtiva, da escolha da matéria-prima ao descarte da peça, incluindo as condições de trabalho e a valorização do trabalhador. Isso envolve uso mais eficiente de água e energia, redução de resíduos, rastreabilidade e modelos de negócio mais responsáveis. Também passa por um design inteligente, com roupas duráveis, versáteis e de maior vida útil. A lógica é produzir melhor, comprar melhor e usar por mais tempo”, explica, ao destacar que se trata de uma mudança de sistema e de comportamento.

Para o consumidor, um dos primeiros sinais de que uma marca segue princípios sustentáveis e éticos é a transparência. Segundo a especialista, empresas comprometidas costumam informar onde produzem, quem fabrica suas peças, quais materiais utilizam e quais metas ambientais e sociais adotam. “Quando uma empresa explica seus processos com nitidez, demonstra maturidade de gestão”, afirma.

Ela acrescenta que também é importante observar certificações e compromissos reconhecidos, como o uso de matérias-primas recicladas, algodão certificado e iniciativas de rastreabilidade. “No Brasil, cresce o movimento de marcas menores que evidenciam produção local, cadeia curta e proximidade com fornecedores. Outro ponto fundamental é a coerência: se a comunicação fala em sustentabilidade, mas incentiva compras impulsivas, lançamentos excessivos e ‘promoções relâmpago’, há um descompasso. Sustentabilidade exige consistência, não apenas marketing”, ressalta.

No dia a dia, pequenas atitudes podem fazer diferença significativa. Natálya destaca que o consumo consciente começa antes mesmo da compra. “É importante se perguntar se a peça será realmente usada, se combina com o que já existe no armário e se atende à rotina”, orienta. Entre os hábitos recomendados, estão planejar aquisições, priorizar qualidade em vez de quantidade, cuidar corretamente das roupas, lavar menos quando possível e realizar pequenos reparos em vez de descartar. Ela também sugere alternativas como brechós, trocas e plataformas de segunda mão. “Reutilizar peças já existentes costuma ter um impacto muito menor do que comprar algo novo, mesmo quando há apelo sustentável”, completa.

A durabilidade das roupas também começa na escolha. A especialista recomenda observar detalhes de construção, como costuras firmes, acabamento interno, qualidade de zíperes e botões, além da resistência e do toque do tecido. “Outro ponto importante é a modelagem. Peças muito atreladas a tendências passageiras ou com caimento desconfortável tendem a ser menos usadas, enquanto opções versáteis e com bom ajuste permanecem relevantes por mais tempo”, explica.

Além disso, a leitura da etiqueta de composição e cuidados é fundamental. “Tecidos que exigem manutenção incompatível com a rotina podem acabar abandonados no armário. A peça ideal é aquela que une qualidade, estética e viabilidade de uso real”, afirma.

Práticas como customização e reaproveitamento também contribuem para reduzir impactos. Segundo Natálya, essas ações estão alinhadas à economia circular e ajudam a prolongar a vida útil das roupas. “Quanto mais tempo uma peça permanece em uso, menor a necessidade de substituição e a pressão por nova produção. Ajustes simples, como trocar botões, tingir ou adaptar modelagens, já fazem diferença. Além do benefício ambiental, há ganho criativo e afetivo, pois a pessoa tende a valorizar mais a peça”, destaca.

Sobre a percepção de que a moda sustentável é mais cara, a docente pondera que essa visão é parcial. Embora algumas peças tenham preço inicial mais elevado, devido à qualidade dos materiais e à produção mais justa, considerar apenas o valor de compra pode ser limitador. “Uma peça que dura anos e é muito utilizada tende a ter melhor custo-benefício do que várias compras baratas que se perdem rapidamente”, afirma. Ela também reforça que há alternativas acessíveis, como aluguel de roupas, trocas, reformas e consumo mais estratégico. “Consumir melhor nem sempre significa gastar mais; muitas vezes, significa evitar compras desnecessárias”, completa.

A formação profissional é outro fator essencial para consolidar práticas sustentáveis no setor. Natálya explica que é nos cursos que futuros profissionais aprendem a tomar decisões mais conscientes desde o início dos processos. “Hoje já vemos conteúdos voltados ao melhor aproveitamento de tecido, redução de desperdício, escolha de materiais, empreendedorismo consciente, rastreabilidade e economia circular. Também cresce a valorização do reparo e da durabilidade como competências técnicas”, destaca.

Por fim, a coordenadora reforça que a moda sustentável não está ligada à perfeição, mas à evolução contínua. “Cada escolha mais consciente — comprar melhor, usar mais, cuidar, reparar e reaproveitar — já contribui para a transformação do setor. O futuro da moda é menos sobre excesso e mais sobre inteligência de consumo, identidade pessoal e valor real. Vestir-se bem também pode significar vestir-se com propósito”, conclui.

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